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Teatrão

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30.03.24

Hoje celebramos 30 anos de Teatrão!

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Eu Salazar

Eu, tu, ele, nós, vós, eles: Salazar

Sou filho do 25 de Abril. Sou filho de duas pessoas que depois 74 encontraram a idade certa e o momento certo para casar e constituir família – a família que eles sonhavam ter, não a que o antigo regime convidava a formar. Essa geração, a dos meus pais, é a dos últimos filhos do Estado Novo, os que nasceram e cresceram com ele e chegaram à idade adulta na altura certa de matar o pai, essa revolução íntima Freudiana que se atinge na maturidade e que liberta a consciência de cada um. Feitas as contas, sou neto do Estado Novo e, já bem dentro da idade adulta, formou-se em mim uma vertigem por conhecer esse avô que morreu antes de eu nascer, mas cujas fotografias ainda param lá por casa, como fantasmas proibidos de um passado difícil de desenterrar. Esse avô coletivo está em todas as casas e não é fácil falar dele.

A minha geração — eu nasci em 78 — tem a distância suficiente do Estado Novo para lhe não conhecer qualquer impacto direto, mas tem proximidade que chegue para sentir os seus efeitos tardios na consciência e definição do que somos coletivamente. Somos uma espécie de millenials português-suave que usa a expressão lápis azul com propriedade em piadas académicas, mas que se indigna com a censura automática no Facebook; que se fascina com as histórias de Angola do tio retornado, mas que não conheceu o serviço militar obrigatório; que viu a mãe a cozinhar uma vida inteira, mas que milita nas fileiras do feminismo internacional. Somos dualidade. Todos o são, esta é a nossa.

Para assinalar os 50 anos da queda do ditador, levantamo-nos para falar dele. Em Eu Salazar caímos no erro consciente da sinédoque — tomar o todo pela parte, confundir o homem com o regime que ele presidiu. Criámos para isso um laboratório teatral onde um ator quer ser Salazar, quer experimentar-lhe a pele, as virtudes, as inquietações, as paixões e os medos. Nesta especulação sinestésica andámos à procura de respostas que não encontrámos, mas pelo caminho fomo-nos confrontando com as dúvidas que desde sempre tivemos, num processo que teve tanto de catártico como de lúdico. Não se trata portanto apenas de nos compreendermos — individual e coletivamente — através do padrasto vernáculo, mas também de brincar com Salazar, dessacralizá-lo, exumá-lo, amassá-lo como uma criança amassa plasticinas de cores diferentes numa mole desorganizada e caleidoscópica, o que é por si só um ato político e especialmente insurreto dada a nossa particular inclinação para o pudor quando falamos de coisas sérias.

Reconhecemos que o lugar do teatro é o do debate estético, tal como reconhecemos que todo o teatro é político. Mas nem o debate estético, nem o gesto político, nem tão pouco a soma dos dois, parece chegar para circunscrever este projeto. Na sensação que temos de estar a trabalhar uma coisa que é muito maior do que nós, esperamos que o espetáculo produza, em quem vê, experiências significativas que promovam o confronto de cada um consigo próprio e com a (sua) História. Até lá, resta-nos, como escreveu Salazar, chamar a atenção de Vossas Excelências / E a sua caridade p’ra as deficiências / Da nossa execução.

Ricardo Vaz Trindade

Ficha Técnica e Artística